O médico Hésio de Albuquerque Cordeiro possui doutorado em Medicina Preventiva pela Universidade de São Paulo, além de curso de aperfeiçoamento na Kentucky University (EUA). Ex-presidente do Inamps, Hésio Cordeiro foi um dos líderes do Movimento Sanitarista do Brasil, um dos maiores movimentos sociais da história política do país, que culminou com a criação do Sistema Único de Saúde, na Constituinte de 88. Atualmente, como diretor da Agência Nacional de Saúde Suplementar, Dr. Cordeiro fez um balanço sobre os 20 anos do SUS.
CMB – Em que circunstância e por que o SUS foi criado?
Dr. Hésio Cordeiro – O SUS foi criado a partir de um movimento de reforma sanitária com ações integradas de saúde. Inicialmente, o propósito era iniciar uma reorganização do sistema de saúde, procurando evitar a superposição de ações e desenvolver o comando único em níveis federal, estadual e municipal. Também o direito à saúde e o dever do Estado foram pautados como princípios que viriam a ser consolidados na Constituinte de 1988.
CMB – O modelo proposto é o mesmo vivido hoje?
HC – Sim, é o mesmo proposto na Constituinte, embora falte completar o aprimoramento da qualidade e tenha deixado de fora o detalhamento da regulação do setor privado, especialmente os planos privados de saúde.
CMB – Como o Sr. avalia o SUS?
HC – O SUS está em processo de construção e, portanto, ainda tem deficiências, especialmente em relação aos níveis secundário e terciário de atenção.
CMB – No projeto inicial já era possível prever a situação de crise que o SUS enfrenta atualmente?
HC – Não creio que o SUS viva uma situação de crise. Passa por uma situação crônica de falta de recursos e de deficiências na gestão dos hospitais e de falta de resolubilidade da atenção básica. O pessoal de saúde é mal remunerado e isto tem reflexos na qualidade e na dedicação com tempo integral às ações de saúde.
CMB – Qual seria a alternativa mais viável para reversão do déficit da tabela de procedimentos?
HC – Os recursos destinados à saúde ainda são escassos e a CSS, que virá substituir a CPMF, é aguardada como uma solução para aumentar as dotações orçamentárias do setor. Para ampliar as tabelas de procedimentos é necessário melhorar a gestão da saúde, além da definição política do aumento dos recursos.
CMB – Como o Sr. vislumbra o SUS daqui a 20 anos?
HC – Em vinte anos espero que tenhamos consolidado a proposta do sistema como um Sistema Nacional de Saúde, aperfeiçoando a regulação e ampliando a cobertura de todos os segmentos da população.
CMB – A CMB refletirá sobre os primeiros 20 anos do SUS no seu XVIII Congresso Nacional, qual a relevância de discussões como essa?
HC – A CMB desenvolverá a rede de instituições filantrópicas e vai melhorar a qualidade do atendimento, com maior controle social e participação em todos os níveis do sistema.