» Claudio Luiz Lottenberg
Presidente do Hospital Israelita Albert Einstein
A tecnologia é responsável por grandes saltos na medicina, mas sua incorporação no sistema de saúde deve estar associada à redução de custos e ao aumento da qualidade dos serviços ofertados na, assim chamada, medicina de valor. Entre essas novas tecnologias, uma que se destaca com potencial para fazer a diferença é a telemedicina, que compreende a oferta de serviços em saúde nos casos em que a distância é fator crítico, usando tecnologias de informação e de comunicação para o intercâmbio que permitam diagnósticos, prevenção e tratamento de doenças, além de educação continuada, pesquisas e avaliações.
A telemedicina surgiu a partir da constatação das dificuldades que unidades de atendimento primário e secundário enfrentam quando necessitam de pareceres de especialistas nem sempre disponíveis em todas as localidades. Com isso, pode-se evitar, por exemplo, que um paciente em estado grave seja transferido de uma unidade para outra, apenas para ser avaliado por um especialista, e depois retornar ao posto de atendimento original — uma prática frequente que toma tempo, eleva custos e, muitas vezes, aumenta os riscos para o paciente.
Além da racionalidade, a telemedicina tem a vantagem de poder conectar unidades de pronto atendimento de qualquer lugar do país com centros de excelência. Utilizando equipamento para transmissão de imagens e dados por meio de uma linha dedicada de internet para comunicação em tempo real, profissionais das unidades de pronto atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS) podem fazer diagnósticos, tirar dúvidas e orientar procedimentos contando com o conhecimento e orientação de especialistas que atendem nos hospitais que são referência de qualidade no Brasil.
Essa constatação deu origem ao projeto de aplicação de telemedicina na capacitação, no apoio a diagnóstico e terapêutico no atendimento de emergência ao doente gravemente enfermo, em unidades desprovidas de especialistas, utilizando a experiência de profissionais de hospitais mais bem providos, como Hospital Israelita Albert Einstein. Com foco na redução das taxas de mortalidade, tempo de permanência e número de transferências, o projeto de telemedicina teve início em 2012, no Hospital Municipal Dr. Moyses Deutsch M’Boi Mirim, num bairro com fortes carências sociais na Zona Sul de São Paulo, e se estendeu para 16 Estados, conectando o Hospital Albert Einstein a unidades de pronto atendimento do SUS em cidades das mais distantes, como Boa Vista, em Roraima, a mais de 4.500km de São Paulo. Em apenas três anos, apesar das dificuldades naturais de implantação de uma nova tecnologia, mais de 3.500 consultas já foram realizadas por meio de telemedicina, contribuindo para melhor atendimento de pacientes, principalmente nos casos de infecção grave generalizada (sepses), acidente vascular cerebral e emergências cardíacas.
Levar os recursos da telemedicina para milhares de pacientes do SUS tornou-se possível em função do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS), uma parceria público-privada que possibilita que as entidades de saúde de referência assistencial participem do desenvolvimento do Sistema Único de Saúde transferindo tecnologias de gestão e de atenção úteis para serem adaptadas pela rede pública, além de desenvolverem pesquisas de interesse junto a sociedade. Iniciativas desta natureza requerem atitudes que tenham lastro em programas de segurança do paciente como é o caso dos chamados hospitais de excelência que há anos são os responsáveis por grande parte da inserção tecnológica em nosso país e, gradativamente, transfere as inovações aos demais hospitais graças à integração proporcionada pelo Proadi junto ao SUS. Pelo potencial de impacto em fatores como mortalidade, implementação de protocolos, qualidade assistencial e apoio à decisão médica em algumas patologias, a telemedicina pode ser considerada um vetor de transformação da assistencial. A exemplo de toda transformação desta natureza, está sujeita a resistências.
Os desafios são muitos e perfeitamente superáveis. Num país com a extensão, as características geográficas e o perfil sócio econômico do Brasil, a telemedicina é essencial para democratizar a tecnologia em assistência médica e está plenamente alinhada aos princípios de equidade, universalidade e igualdade definidos no Sistema Único de Saúde ao promover a transferência de conhecimentos de um centro de excelência para instituições com menos recursos. A parceria público-privada por meio do Proadi-SUS permitiu um avanço, levando nova perspectiva para apoio diagnóstico e terapêutico a pacientes em estado graves atendidos pelo sistema público de saúde em grandes municípios com maior resolubilidade dos casos. Foi um primeiro passo importante, mas a caminhada é longa e para ter sucesso é necessário que público e privado continuem unidos.
Fonte: Correio Braziliense