A filantropia, no terceiro milênio, tem novos paradigmas. Iniciando uma série de entrevistas históricas sobre o segmento, Arymar Ferreira Nunes, primeiro vice-presidente da Confederação das Misericórdias do Brasil. Em 1987, entretanto, Arymar assumiu a presidência da CMB e escreveu seu nome na história do segmento e da saúde do Brasil.
1) Qual o paralelo que o Sr. faz da filantropia no Brasil da época em que o Sr. foi presidente e hoje?
A vida é dinâmica e como tal tudo, evoluiu, os problemas e soluções mudam nas causas e nos efeitos. Iniciei a minha atuação filantrópica na área hospitalar em 19/03/1979 época em que os conceitos de gestão, com raras exceções, em todas as áreas de atuação do ser humano se apresentavam atrasadas em relação ao que já existia em outros países. Os assuntos eram tratados com uma certa dose de empirismo, as soluções eram muito mais produtos da aplicação do bom senso, embora já houvessem técnicas de boa administração que conduziam ao sucesso. Essa situação ocorria em todas as ações filantrópicas. Os governos, Federal, Estadual e Municipal padeciam do mesmo mal, os assuntos que lhes cabiam eram resolvidos na maioria das vezes sem o uso de dados (que existiam porem não usados), enfim, sem os fundamentos de uma boa administração, sob a influencia de um maior ou menor prestigio e pressão dos filantropos solicitantes envolvidos. Evidentemente tal comportamento ainda persiste pois ele é inerente aos seres humanos, principalmente nos despreparados para a Administração. Essa era uma grande realidade que foi sendo corrigida através do tempo por pessoas competentes que começaram a surgir.
Desde 1979 até 1990, meu período nesta área, o citado panorama operacional apresentou uma razoável evolução para a modernidade. Isto no tempo em que atuei como: Provedor da Santa Casa de Botucatu (79 a 1980), Presidente da Federação das Santas Casas de Misericórdias e Hospitais Filantrópicos do Estado de São Paulo (80 a 1990 ) e Presidente da Confederação das Santas Casas de Misericórdias e Hospitais Filantrópicos do Brasil (86 a 1990). As nossas Diretorias realizaram esforços consideráveis para mudar o “statu quo” vigente nas três áreas do poder publico executivo.
Embora naquela época as instituições filantrópicas hospitalares ligadas à saúde representassem cerca de 62% da oferta leito em confronto com as instituições governamentais e às privadas com fim lucrativo, a política dos governos favoreciam muito mais essas ultimas. Fizemos demonstrações em termos estatísticos do que existia (porém não usado), o que nos possibilitou a pressionar com mais competência os governos em todos os níveis.
Atualmente acompanho não muito próximo o assunto saúde hospitalar, percebo que o convencimento das autoridades e a falta de recursos governamentais adquiriu um patamar mais elevado e racional porém ainda difícil de ser trabalhado. Percebe-se um grande esforço da CMB para conseguir soluções governamentais que contemplem adequadamente o enorme trabalho das filantrópicas ligadas à saúde para suprir as necessidades e anseios que a operacionalidade atual e moderna requer, não esquecendo que essas instituições cobrem atividades que são obrigação do governo.
2) Após deixar a presidência da CMB, o Sr. continuou trabalhando em prol da filantropia?
Sim, na verdade desde os 17 anos dedico parte do meu tempo diário a um serviço filantrópico. Nos últimos tempos tenho estado ligado a obras sociais através de Clubes de Serviço.
Na gestão 1992-1993 na Presidência do Lions Clube de Botucatu em parceria com a Faculdade de Medicina de Botucatu, organizei e realizei o Projeto Catarata, no qual fizemos avaliação oftalmológica em 1.362 pessoas de baixa renda e promovemos a cirurgia de 160 nos quais recuperamos a sua capacidade de visão. Cabe salientar que este foi o segundo projeto de atendimento social no Brasil para recuperação da visão com a cirurgia da Catarata.
Em 2004 começamos construir por conta própria e de minha empresa a Moldmix Ind. Com. Ltda. um complexo de imóveis com a área total de 1.750 m2 para atender diversas carências de pessoas de baixa renda. Em 2005 inauguramos as instalações completamente aparelhada com o que existe de mais moderno.
Atendemos com grande sucesso 267 crianças e 180 idosos todos de baixa renda que nada pagam e inclusive recebem uniformes para freqüentar a Associação.
Esta instituição ABEM – Associação do Bem Estar foi reconhecida de Utilidade Pública Federal.
3) Como o Sr. avalia a situação da saúde no Brasil?
Tal qual a da maioria dos países desenvolvidos, difícil de dar atendimento gratuito em todos níveis . O atendimento à saúde tende a ser de alto custo e os recursos são escassos para atender indiscriminadamente toda a popu lação, daí a razão de ser via de regra precário.
4) Qual seria, na sua opinião, a melhor saída para a crise no setor?
Fazer um atendimento gratuito seletivo em função da renda do atendido. As pessoas de baixa renda teriam um tratamento gratuito universal.
5) Gostaria de deixar algum recado para as instituições?
Dediquem-se com toda a sua capacidade física e financeira à filantropia. Os que sentirem sem habilidade para o exercício desta atividade procure fazer cursos de voluntários que hoje existem para a filantropia em diversas áreas.
Atos de filantropia proporcionam um prazer incomensurável a quem recebe e a quem pratica.
Arymar F. de Barros