Manuel de Lemos fala sobre as Santas Casas brasileiras e portuguesas.
Com o objetivo de aproximar as relações das Santas Casas de Misericórdias portuguesas e brasileiras, o Dr. Manuel de Lemos, recentemente releito presidente do secretariado nacional da União das Misericórdias Portuguesas e atual vice-presidente da Confederação Internacional das Misericórdias, destacou pontos importantes para consolidação desta relação, mostrando direções a serem seguidas:
01 – Frente a atual crise europeia e a recente devolução dos hospitais para às entidades filantrópicas, como o senhor avalia a situação das Santas Casas em Portugal?
ML: A situação das Santas Casas em Portugal é difícil. É sabido que a maior parte da nossa atividade se situa no domínio assistencial e todos os dias existem mais pessoas em Portugal a procurar ajuda nas Santas Casas. Dito isto, todos em Portugal e na Europa reconhecem que as Santas Casas e o restante setor filantrópico (que na Europa se designa por “social”) são a grande “almofada social” do nosso País. E a devolução dos Hospitais constitui precisamente o reconhecimento pelo Estado, de que as Santas Casas estão do lado da solução e não do lado do problema. Fazer mais com menos e fazer com qualidade tem sido o nosso lema. Em nome das pessoas e por causa das pessoas!
02 – Aqui no Brasil criamos a exitosa Frente Parlamentar de Apoio às Santas Casas. Como encontra-se a relação das Santas Casas portuguesas e o Parlamento? O Setor pensa em também criar uma Frente no Parlamento português?
ML: A criação da Frente Parlamentar de Apoio às Santas Casas constitui uma iniciativa política de um alcance estratégico notável. E o Deputado Antonio Brito e todos os que o acompanharam nesse trabalho são merecedores de todos os louvores. Em Portugal ainda estamos longe de poder alcançar um tal objetivo, embora a recente aprovação por unanimidade da Lei da Economia Social no Parlamento Português, seja um passo decisivo nesse sentido. Como dizem os italianos “piano, piano, si va lontano….“
03 – Qual o sentimento do povo português em relação às Santas Casas?
ML: As Santas Casas estão no Código Genético do Povo Português. Já no séc. XVI se dizia: “Um Português um Padrão, dois portugueses um Abraço, três portugueses uma Misericórdia“. Temos pois um passado de que nos orgulhamos, um presente exitoso, mas somos sobretudo Instituições com muito futuro. Todos os portugueses sabem bem o que são as Santas Casas e todos, num momento qualquer da sua vida, se cruzam, por uma razão ou por outra, com as Misericórdias.
04 – Como está funcionado o programa de cuidados continuados na rede das Santas Casas Portuguesas?
ML: De uma forma geral muito bem, naturalmente com todos os problemas de crescimento inerentes. Mas as Redes de Cuidados Continuados são estruturantes nos modernos sistemas nacionais de Saúde; e Portugal como de resto o Brasil, não podem fugir a esta regra que decorre do aumento de esperança de vida e do desenvolvimento.
05 – Qual o futuro que o senhor enxerga para o intercambio entre as Santas Casas portuguesas e brasileiras, e destas com as demais entidades nos diversos continentes?
ML: Coloco a minha reflexão a dois níveis: entre os dois Países e com os outros. Entre Portugal e o Brasil reconheço toda a importância em reforçar a nossa colaboração conjunta. E o nosso Presidente Mundial Antonio Brito e eu próprio estamos muito cientes dessa importância. De fato, temos problemas semelhantes, pese embora a dimensão dos dois Países e ganharemos em percorrer caminhos semelhantes. Por exemplo: como vamos lidar com o Estado na área da Saúde? Como vamos fazer evoluir os nossos Hospitais? O que vamos fazer nos Hospitais de pequeno porte? Como vamos assegurar um financiamento correto para cumprir a nossa Missão?
Já em relação aos outros Países, nesta fase, a nossa colaboração deve ser, a meu ver, mais programática. Dar a conhecer bem a natureza e identidade das Santas Casas, a nossa Missão ecuménica no sentido que acolhemos todos sem distinção de cor, raça, credo ou rendimentos e da nossa opção preferencial pelos pobres. No momento em que o Mundo tem um Papa oriundo da América Latina, que escolheu o Brasil para a sua primeira deslocação, a nossa Missão ganha esplendor e pode constituir um referencial para um percurso de afirmação da cidadania, da democracia e do desenvolvimento.