Publicação mostra que a rede reúne 1.854 hospitais, é a única estrutura hospitalar em 821 municípios e realiza 61,15% das internações de alta complexidade do sistema público
A Confederação das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos (CMB) lançou, durante o 34º Congresso Nacional das Santas Casas e Hospitais Filantrópicos, o Anuário da Filantropia 2026. A publicação consolida indicadores sobre estrutura hospitalar, presença territorial, produção assistencial, geração de empregos e sustentabilidade econômica da rede filantrópica de saúde.
Apresentado pelo presidente da CMB, Flaviano Feu Ventorim, e pelo diretor de Estratégia da Numb3rs Analytics, Luís Eduardo Azevedo, o documento busca traduzir em dados o papel das Santas Casas e dos hospitais filantrópicos no Sistema Único de Saúde (SUS).
“Conhecer os nossos dados é reconhecer a nossa força”, afirmou Flaviano durante o lançamento.
Os indicadores quantitativos foram produzidos a partir das bases oficiais do DATASUS – SIA, SIH e CNES -, com metodologia e processamento da Numb3rs Analytics. A edição utiliza como referência a produção do ano fechado de 2025 e a estrutura hospitalar registrada em dezembro do mesmo ano.

Presença que ultrapassa os grandes centros
O Brasil possui 7.485 hospitais, dos quais 1.854 são filantrópicos, o equivalente a 24,77% do total. A rede está instalada em 1.321 municípios e possui estabelecimentos em 26 das 27 unidades da Federação.
Em 821 municípios, a Santa Casa ou o hospital filantrópico é a única unidade hospitalar existente. O dado ganha ainda mais relevância porque 91% dessas cidades possuem menos de 50 mil habitantes, o que evidencia a contribuição da rede para a regionalização do SUS e para a oferta de assistência fora dos grandes centros urbanos.
O alcance das instituições, porém, é ainda maior do que sua presença física. Em 2025, os hospitais filantrópicos atenderam moradores dos 5.571 municípios brasileiros.
Na capacidade instalada, a rede oferece 120.230 leitos SUS, correspondentes a 37,42% do total nacional. Entre os leitos de Unidade de Terapia Intensiva destinados ao sistema público, a participação chega a 42,17%, com 13.600 leitos.
Participação cresce com a complexidade
Os dados demonstram que a participação filantrópica aumenta conforme cresce a complexidade da assistência. Embora responda por 28,11% da produção total analisada, a rede realizou 61,15% das internações de alta complexidade do SUS em 2025.
Na cardiologia, os hospitais filantrópicos foram responsáveis por 66,35% dos atendimentos de alta complexidade e por 64,84% das cirurgias cardiovasculares. Na oncologia, realizaram 65,43% dos atendimentos ambulatoriais e hospitalares, percentual que alcançou 67,08% na alta complexidade.
A rede também respondeu por 68,55% dos atendimentos relacionados a transplantes. Foram 289.909 procedimentos de alta complexidade, correspondentes a 67,41% da produção nacional desse segmento.
Na terapia renal substitutiva realizada em ambiente hospitalar, a participação filantrópica chegou a 72,07%. Esse atendimento envolve, em geral, pacientes internados ou com condições clínicas que impedem o acompanhamento em clínicas ambulatoriais.

Rede amplia participação nas cirurgias eletivas
O Anuário também dimensiona a contribuição das instituições para a redução da demanda por cirurgias eletivas. Mesmo representando 35,48% dos hospitais que realizam esses procedimentos, a filantropia executou 46,24% do volume total e 61,04% das cirurgias eletivas de alta complexidade.
Na Política Nacional de Redução de Filas, a participação filantrópica passou de 46,89%, em 2024, para 53,63%, em 2025. O avanço de 6,7 pontos percentuais ocorreu com uma rede habilitada praticamente constante, o que, segundo a publicação, demonstra a capacidade de resposta das instituições diante do aumento da demanda.
Mais de um milhão de postos de trabalho
Além da assistência, o levantamento mostra a contribuição econômica e social das instituições. Os hospitais filantrópicos sustentam 1.024.444 postos de trabalho, equivalentes a 36,7% do emprego hospitalar brasileiro.
O conceito corresponde às ocupações registradas nos hospitais e não necessariamente ao número de pessoas empregadas, pois um mesmo profissional pode ocupar mais de um posto.
Do total da rede, 820.403 postos estão diretamente ligados à assistência. São 376.674 postos médicos, correspondentes a 42,3% do total nacional, e 352.635 postos na área de enfermagem.
Entre 2021 e 2025, a quantidade de postos de trabalho na filantropia passou de 821 mil para mais de 1,02 milhão, crescimento de 24,7%.
Produção financeira reflete concentração na alta complexidade
Em 2025, a rede filantrópica registrou R$21,07 bilhões em faturamento junto ao SUS, o equivalente a 51,12% dos R$41,22 bilhões contabilizados na produção hospitalar e ambulatorial analisada.
O resultado não significa que as instituições recebam valores maiores por procedimentos equivalentes. Segundo o Anuário, a participação financeira está associada à concentração da rede nos serviços de maior densidade tecnológica e custo assistencial.
Dos R$17,24 bilhões faturados pelo SUS em procedimentos de alta complexidade, R$10,94 bilhões, ou 63,46%, corresponderam à produção filantrópica. Esse nível assistencial representa 51,93% de toda a produção financeira da rede.
Evidências para o debate público
Além dos indicadores, o Anuário apresenta contribuições do deputado federal Antonio Brito, presidente da Frente Parlamentar de Apoio às Santas Casas, Hospitais e Entidades Filantrópicas; do secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde, Mozart Julio Tabosa Sales; do ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho; e de Luís Fernando Vieira Joaquim, sócio-líder de Life Sciences & Health Care da Deloitte Brasil.
A publicação aponta como prioridades a construção de um modelo de financiamento baseado em custos reais e previsibilidade, a recomposição permanente dos valores dos procedimentos, a ampliação dos pagamentos por desempenho e qualidade, o fortalecimento dos hospitais de pequeno porte e o avanço da transformação digital.
Ao apresentar o documento, Flaviano destacou que os indicadores devem contribuir tanto para o aprimoramento da gestão quanto para a formulação de políticas públicas.
“Gestão também se faz com dados. Representação se faz com evidências. E boas políticas públicas precisam ser construídas a partir da realidade”, ressaltou.
O presidente também anunciou o compromisso da CMB de publicar o Anuário anualmente, criando uma série histórica capaz de acompanhar a evolução da rede, identificar tendências, comparar resultados e qualificar o diálogo com governos, Congresso Nacional, gestores, órgãos de controle, pesquisadores, imprensa e sociedade.
“Somos parte estrutural do SUS. Nossa missão é garantir que essa presença histórica seja também sustentável, eficiente e preparada para o futuro”, afirma Flaviano.
Com o Anuário, a CMB pretende oferecer informações qualificadas para subsidiar o debate público e a formulação de políticas voltadas à sustentabilidade e ao fortalecimento da assistência filantrópica no Brasil.
“Porque não existe SUS viável sem a rede filantrópica. E quanto melhor conhecermos a nossa força, mais preparados estaremos para transformá-la em futuro”, concluiu Flaviano.




